Quinta Sinfonia de Dmitry Shostakovich

Apesar da perspectiva que muitos têm do desmoronamento da música no século XX, tal ideia não está de todo bem fundamentada. Apesar das ideias de Schoenberg e da popularidade da música industrial terem prevalecido, o século XX não foi tão trágico assim. E o XXI também não o será, assim o creio. Quem sabe se não teremos um grande compositor entre nós pronto para cambiar o mundo musical e mudar a ideia que todos têm da música?

Eis aqui o compositor russo Dmitri Shostakovich, um dos grandes nomes do século passado. Nascido em 1906 em São Petersburgo e falecido em 1975 em Moscovo, viveu numa época de guerra que se dava na Rússia onde chegou a sofrer censuras nas suas obras.

O seu estilo apresenta, por vezes, tendências neoclássicas, onde a tonalidade prevalece com teor romântico com influência mahleriana, adicionados elementos atonais e cromáticos. Teve várias influências, entre elas, de Prokofiev, Mussorgsky «e especialmente Stravinsky» devido ao seu neoclassicismo, apesar da relação entre estes já se ter mostrado nervosa e tensa. As palavras de Shostakovich sobre ele foram «Stravinsky, o compositor que eu idolatro. Stravinsky, o pensador que eu desprezo». Também são evidentes as presenças de elementos da música folclórica russa.

A sua Quinta Sinfonia, em quatro andamentos, é das obras mais populares e das mais aclamadas. Ela foi composta como uma resposta à censura da sua Quarta Sinfonia. Ele esperou que ela transmitiria a sua reabilitação política e que poderia passar por um classicismo heróico exigido pela polícia oficial.

A sua première deu-se a 21 de novembro de 1937 e persuadiu o público de tal maneira que o ovacionaram durante mais de meia hora. As autoridades afirmaram que encontraram todos os vestígios elementares que lhe tinham exigido. Porém, o público ouviu uma expressão de sofrimento a que foi submetido por Estaline. Duas perspectivas diferentes numa só obra.

O pianista  Heinrich Neuhaus descreveu-a como «profunda, sentida, persuasiva, clássica na integridade da sua concepção, perfeita na forma e maestra na escrita orquestral (…), tão verdadeira e sincera que reconta os sentimentos humanos». E se ele o diz…

Mravinsky e Shostakovich

Eis aqui a interpretação da Orquestra Filarmónica de Leninegrado sob regência de Yevgeny Mravinsky, a mesma orquestra e regente da première da obra dada em 1937. Nada de mais palavras. Escutem.

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2 thoughts on “Quinta Sinfonia de Dmitry Shostakovich

  1. Claro que o blog é pessoal e o seu autor não tem outro compromisso senão com as suas próprias ideias, mas eu não posso deixar de me sentir um pouco desapontado ao encontrar esse sutil desprezo à música de Schoenberg em um blog que se diz amante da música… Isso posto, é sempre bom ter palavras que apresentem a Quinta Sinfonia do Shostakovich. O texto me fez pensar especialmente sobre a classificação de “neoclássico” na música do século XX: costumo associá-la mais aos pastiches de Stravinsky ou à Sinfonia Clássica do Prokofiev do que à técnica tonal ou ao emprego de formas tradicionais, então vale pensarmos melhor sobre esse adjetivo “neoclássico” no caso do Shostakovich.

    • Caro Leonardo,

      Peço desculpa pelo erro. A verdade é que ele possui obras em que existem particularidades neoclássicas e tal não o define como seu estilo. A pressa é inimiga da perfeição. Já corrigi o artigo e espero que já dê para entender a ideia.

      Quanto à sua definição de amor pela música ter de estar sujeito a gostar de tudo o que vem ao mundo é um pouco grotesca. Rossini não gostava da música de Wagner, são opiniões. Mas Rossini devia amar a música. Penso eu… Houveram tantas discordâncias no ambiente musical que são inúmeras e, por isso, um amante de música não tem que estar de acordo com tudo o que vem ao mundo. Se assim fosse, para que existe a filosofia da estética?

      Ora, eu não disse que não gostava da música de Schoenberg, mas que contribuiu para o seu declínio depois dessa época. Quantos indecisos e pensadores eu tenho visto que não entendem com que perspectivas devem estar: se da música schoenbergiana, se a da música com carácter tonal; receiam que se usarem música tonal estarão a ir contra o desenvolvimento musical. Mas eu não desgosto do serialismo, dodecafonismo, etc. Eu até honro a música de Stockhausen! Mas não deixo de me sentir mal ao ver Schoenberg a criar algo como se fosse um deus, algo que vai contra milénios de música desde os primatas até agora. A verdade é que a música é percebida no nosso cérebro da maneira emocional. O dodecafonismo não gera nada mais nada menos que angústia, algo neurótico. Schoenberg até admitiu-o! O que mais detesto é que ele achou que o tonalismo acabou, ilógico para o inconsciente e consciente humano que necessita de acordes perfeitos e repetições para se satisfazer emocionalmente. Ou será que existem humanos que não gostam de emoções, nem do carinho de um parceiro, nem do amor? Para além de não falar que para ele a liberdade de criação é ilimitada. Isso não o defendo eu e estou completamente contra isso. Nada pode ser totalmente livre e infundamentado, existe a ordem e progresso (tal como no lema brasileiro). Mas também sou contra o conservadorismo que é impede o desenvolvimento, que impede a novidade artística que a sociedade necessita.

      Mas qualquer dia hei-de lhe mostrar que no Tratado de Harmonia ele se contradiz num dos parágrafos filosóficos que escreveu.

      Quanto ao blogue ser pessoal, eu penso que nunca tinha dito que ele não era. Será sempre pessoal, daí estar a palavra «crítica» no cabeçalho.

      Um bem-haja e obrigado.

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