Fascínios opus 6, os Castrati, cantores castrados

Agora vos falarei de um dos mais escuros acontecimentos no ambiente musical erudito. Tal acontecimento foi a existência dos castrati (plural) surgidos no barroco. O castrato (no singular), também chamado de musico ou primo musico, era um cantor masculino que o define pela sua única tessitura. Essa tessitura era mais aguda, mais feminina e mais ágil que as outras vozes masculinas devido ao processo que na pré-puberdade eram sujeitos. E o que lhes faziam para ficarem com esse tipo de voz? É simples. Castravam-nos.

Com a castração, eles desenvolveriam a cavidade torácica de uma forma quase desproporcional, enquanto a laringe e as cordas vocais se desenvolveriam de uma forma muito mais lenta. A operação era paga ou pelo corregedor de uma província ou pela igreja, aliciando a família dos rapazes com uma segurança financeira. Muitos dos meninos não sobreviviam embora na hora fossem drogados a ópio ou fossem castrados num banho de leite para amenizar a dor; outros suicidavam-se e outros enlouqueciam.

A preferência por estes eunucos era  devido principalmente à não permissão de mulheres na igreja italiana. Ora, podiam colocar em vez delas rapazes do coro, mas ainda não estavam bem treinados; ou até mesmo falsetistas, mas comparado com os castrati eram insatisfatórios e artificiais, principalmente nas partes do soprano. Isto só se aplicou aos poucos que conseguiram, muitos, como já referi perdiam-se, e outros não passavam de normais cantores.

Os castrati chegaram a actuar no mundo operístico e eram bem aclamados, houveram diversas estrelas internacionais entre eles. Existiu uma altura em que era regra, por assim dizer, ter na opera séria um castrato como personagem principal e/ou secundária, com os tenores apenas a representar reis e homens de longa idade.

O treino vocal intensivo a que eram sujeitos também ajudavam a tornarem-se o que eram, grandes cantores. As razões do enorme sucesso eram centradas na agilidade com uma grande facilidade e brilhantismo em trilos e ornamentos e no timbre invulgar. Para além disso, Farinelli, um importante e idolatrado castrato, referiu que conseguia dominar cerca de três oitavas. É incrível quando há vozes que fazem uma oitava e meia e já acham demasiado ir aos registos extremos.

Eram extremamente troçados pelo facto desconcertante de terem sido castrados, mesmo que de acordo com a lenda eles conseguiam ter relações sexuais como qualquer um. Isso não era verdade, o facto de terem sido sujeitos a tal atrocidade não regularizava de modo algum o seu organismo, enfraqueciam com facilidade, tinham problemas cardíacos, etc. A troça provinha principalmente dos grandes cantores bem pagos que tinham uma certa inveja deles por terem tido uma educação de primeira categoria que os podia tornar professores, diplomatas ou outra grande carreira.

O número dos castrati, apesar de ter atingido centenas, começou a sofrer um declínio geral no século XVIII devido à prosperidade económica que se tinha instalado que fez com que as famílias não aceitassem financiamentos para transformarem os seus filhos em castrato. Simultaneamente, houve um declínio daquele ascetismo cristão que considerava a castração como uma forma pura de celibato o que fez com que aumentasse o declínio dos cantores referidos. Só o Vaticano manteve alguns na sua «casinha humilde» em Itália.

Aqui temos uma interpretação de Alessandro Moreschi, um castrato que gravou a sua voz num gramofone aos quarenta e quatro anos em 1902. Mas, esta amostra é muito débil, e não capta a essência e grande qualidade de voz que os castrati possuíam. Mas dá para ficar com uma ideia.

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