Jorge Croner de Vasconcelos (1910-1974)

FotoQuando conheci este compositor e procurei obras dele pelo Youtube, fiquei decepcionado. Existem apenas duas obras, ambas com participação vocal, das muitas que aglomeram três ballets, dois poemas sinfónicos, algumas peças para piano, várias canções, outras obras corais e ainda outras de câmara.

Nascido a 11 de Maio de 1910 na capital portuguesa, no ano da instauração republicana, entrou no Conservatório Nacional de Lisboa em 1927 para estudar piano e chegou a estudar composição com o consagrado Freitas Branco. Antes, tinha frequentado a Faculdade de Letras, mas acabou por decidir em seguir uma vida na música.

Mais tarde, prosseguiu os seus estudos em Paris com diversos nomes como Dukas, Boulanger, Roger-Ducasse, Cortot e Stravinsky. Ao voltar a Lisboa, em primeiro lugar, leccionou história da música na Academia de Amadores de Música e, posteriormente, a mesma disciplina mais composição e canto, porém, tal facto, a partir de 1939, e a leccionar no Conservatório onde havia estudado.

Continuou as suas actividades como pianista, porém em 1943 decidiu abandonar a sua carreira como solista e dedicar-se apenas ao ensinamento de composição musical. Em 1974, outro ano importante para o sistema governamental pois dá-se a queda da ditadura, e Croner de Vasconcelos também cai no descanso eterno a 9 de Dezembro em Lisboa.

A sua obra, de acordo estrito com o que refere o New Grove Dictionary of Music, revelam fortes influências de Ravel, mas também de Stravinsky e Hindemith. Nas suas preferências artísticas estão os aspectos harmónicos, rítmicos e estruturais para a melodia, com uma tendência das pequenas e condensadas formas.

Nas palavras de Gil Miranda sobre o seu trabalho composicional:

«Tecnicamente, caracterizou-se pelo relevo conferido à dissonância, como elemento estrutural e colorístico. Serviu-se com liberdade e discrição dos idiomas correntes antes do fim da segunda guerra mundial – modalismo, escala de tons inteiros, politonalismo, formação de acordes por sobreposição de intervalos diferentes da terceira. Conservou da música tonal a ideia de centro tonal e de cadência, mas alargou aos doze sons o conceito de tonalidade, e praticou cadências a intervalos diferentes da 5.ª descendente ou 4.ª ascendente. Como Paul Hindemith, seu contemporâneo, procurou uma linguagem musical que superasse o cromatismo romântico herdado de Brahms e Wagner e o atonalismo da 2.ª escola de Viena.  Porém, o instinto meridional afastou-o dos sistemas intelectuais estanques. Seu estilo exibe variedade e vitalidade dos ritmos, opulência da harmonia e, em geral, abstenção de grandes gestos retóricos, substituídos de preferência pela expressão concisa e o acento justo. Do ponto de vista do conteúdo, pode talvez sintetizar-se: um etos frequentemente melancólico; expressão directa da emoção; claridade e transparência da forma; gosto das meias tintas e dos contornos adoçados; capacidade de exprimir paixão, mas dificuldade na expressão da força; por vezes franco sentido humorístico. (…)»

Podem ver mais detalhadamente em http://www.bnportugal.pt/images/stories/agenda/2010/jorge_croner_de_vasconcellos.pdf

Duas obras encontram-se no Youtube e aqui estão elas prontas para se deliciarem com este lusitano compositor. O primeiro vídeo que conta com a soprano Ana Madalena Moreira e o pianista Lucjan Luc, é o da peça sob título Três Redondilhas de Camões, composta em 1927. O segundo , de participação desconhecida, é uma obra composta passados dez anos precisamente e é nos encantada com as letras do poeta Francisco Rodrigues Lobo que viveu entre 1580 e 1622. O poema é Fermoso Tejo Meu e está apresentado no fim do artigo.

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.

Francisco Rodrigues Lobo, in Poesias

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