Fascínios opus 7, terceiro movimento da 1ª Sinfonia de Gustav Mahler

Para quem acompanha este blogue e desconhece ao que me refiro, soa um pouco estranho eu elaborar um artigo sobre uma sinfonia do respeitado Gustav Mahler no local onde costumo colocar as loucuras musicais. Mas é que o terceiro movimento da Primeira Sinfonia de Mahler denominado Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen (Solene e moderado, sem se arrastar) tem uma particularidade curiosa que chegou e chega a causar um sentimento bizarro para quem ouvia. A razão de tal acontecimento é pelo facto de que esse movimento tem como tema a melodia do Frère Jacques (ou Bruder Martin noutros países) no modo menor, modo este normalmente triste, contrariando assim o modo maior e alegre que quase toda a gente ouviu na sua infância.

O quão melancólico soa só de imaginar… Mas ele ainda tornou tal facto ainda mais triste quando começa com a melodia num contrabaixo e a faz passar pelos instrumentos de timbre mais nostálgico, ao ritmo de marcha fúnebre. A esta ironia está a evocação da infância de Mahler de uma maneira sarcástica e enriquecedora.

A respeito de tal sucedimento, Mahler escreveu:

«A ideia dessa peça veio ao autor por intermédio de uma gravura paródica conhecida por qualquer criança da Alemanha do Sul e intitulada “Os funerais do caçador”. Os animais da floresta acompanham o caixão do caçador morto; lebres empunham uma bandeira; à frente uma trupe de músicos boêmios acompanhados por instrumentistas gatos, corujas e corvos… Cervos, corças e outros habitantes da floresta, de pêlo ou pena, seguem o cortejo com fisionomias afetadas. A peça, com uma atmosfera ora ironicamente alegre, ora inquientante, é seguida de imediato pelo último movimento “d’all Inferno al Paradiso”, expressão súbita de um coração ferido no mais profundo de si…»

Com a interpretação da Filarmónica de Viena sob direção do aclamado Leonard Bernstein, disfrutem a paródia.

Fascínios opus 6, os Castrati, cantores castrados

Agora vos falarei de um dos mais escuros acontecimentos no ambiente musical erudito. Tal acontecimento foi a existência dos castrati (plural) surgidos no barroco. O castrato (no singular), também chamado de musico ou primo musico, era um cantor masculino que o define pela sua única tessitura. Essa tessitura era mais aguda, mais feminina e mais ágil que as outras vozes masculinas devido ao processo que na pré-puberdade eram sujeitos. E o que lhes faziam para ficarem com esse tipo de voz? É simples. Castravam-nos.

Com a castração, eles desenvolveriam a cavidade torácica de uma forma quase desproporcional, enquanto a laringe e as cordas vocais se desenvolveriam de uma forma muito mais lenta. A operação era paga ou pelo corregedor de uma província ou pela igreja, aliciando a família dos rapazes com uma segurança financeira. Muitos dos meninos não sobreviviam embora na hora fossem drogados a ópio ou fossem castrados num banho de leite para amenizar a dor; outros suicidavam-se e outros enlouqueciam.

A preferência por estes eunucos era  devido principalmente à não permissão de mulheres na igreja italiana. Ora, podiam colocar em vez delas rapazes do coro, mas ainda não estavam bem treinados; ou até mesmo falsetistas, mas comparado com os castrati eram insatisfatórios e artificiais, principalmente nas partes do soprano. Isto só se aplicou aos poucos que conseguiram, muitos, como já referi perdiam-se, e outros não passavam de normais cantores.

Os castrati chegaram a actuar no mundo operístico e eram bem aclamados, houveram diversas estrelas internacionais entre eles. Existiu uma altura em que era regra, por assim dizer, ter na opera séria um castrato como personagem principal e/ou secundária, com os tenores apenas a representar reis e homens de longa idade.

O treino vocal intensivo a que eram sujeitos também ajudavam a tornarem-se o que eram, grandes cantores. As razões do enorme sucesso eram centradas na agilidade com uma grande facilidade e brilhantismo em trilos e ornamentos e no timbre invulgar. Para além disso, Farinelli, um importante e idolatrado castrato, referiu que conseguia dominar cerca de três oitavas. É incrível quando há vozes que fazem uma oitava e meia e já acham demasiado ir aos registos extremos.

Eram extremamente troçados pelo facto desconcertante de terem sido castrados, mesmo que de acordo com a lenda eles conseguiam ter relações sexuais como qualquer um. Isso não era verdade, o facto de terem sido sujeitos a tal atrocidade não regularizava de modo algum o seu organismo, enfraqueciam com facilidade, tinham problemas cardíacos, etc. A troça provinha principalmente dos grandes cantores bem pagos que tinham uma certa inveja deles por terem tido uma educação de primeira categoria que os podia tornar professores, diplomatas ou outra grande carreira.

O número dos castrati, apesar de ter atingido centenas, começou a sofrer um declínio geral no século XVIII devido à prosperidade económica que se tinha instalado que fez com que as famílias não aceitassem financiamentos para transformarem os seus filhos em castrato. Simultaneamente, houve um declínio daquele ascetismo cristão que considerava a castração como uma forma pura de celibato o que fez com que aumentasse o declínio dos cantores referidos. Só o Vaticano manteve alguns na sua «casinha humilde» em Itália.

Aqui temos uma interpretação de Alessandro Moreschi, um castrato que gravou a sua voz num gramofone aos quarenta e quatro anos em 1902. Mas, esta amostra é muito débil, e não capta a essência e grande qualidade de voz que os castrati possuíam. Mas dá para ficar com uma ideia.

Fascínios opus 5, Sergei Rachmaninoff versus Robert Schumann

Eis aqui duas peculiares histórias, um pouco inversas entre si quanto ao seu tema, onde um dos protagonistas teve tudo a seus pés e o outro perdeu-o por completo.

Especula-se que Sergei Rachmaninoff conseguiu ser um grande pianista com ajuda do Síndrome de Marfan que se caracteriza por produzir no ser humano membros anormalmente longos. Talvez ele tivesse as mãos mais largas que o normal para a sua estatura, que era cerca de 1,91 e 1,98. Mas como tinha um porte físico tão grande, nada se pode concluir. Tal facto até parece ser de uma deficiência indesejada, mas não para Rachmaninoff que tirou vantagem disso. O seu palmo esticado media cerca de trinta centímetros e ele era capaz de cobrir um intervalo de décima terceira. Décima terceira!, quase duas oitavas!

E contrária a esta feliz história está o desastre de Schumann.

Robert Schumann, apesar do seu alto nível pianístico, não estava de todo contente com as suas mãos que não conseguiam satisfazer o que pretendia, a perfeição. Então, por esse motivo, teve a ideia de mobilizar o dedo médio da mão direita com o uso de uma ligadura, a fim de tornar independente o dedo anular. Mas como ideias tão estúpidas dão desastres, o dedo imobilizado tornou-se paralítico para sempre. Ainda tentou procurar durantes dois anos alguém que o curasse. De nada valeu. Mas não é tão triste a sua história, que do sonho de intérprete passou para compositor. A música ainda ganhou com isso, vá lá que não vá…

Fascínios opus 4, Trilo do Diabo de Giuseppe Tartini

O violino, pelas suas origens populares, foi ganhando ao longo dos tempos anteriores à música contemporânea uma certa misticidade com alguma relação diabólica. Giuseppe Tartini ainda conseguiu aumentar mais essa fama e o violinista e compositor Niccolò Paganini quase fez crer as pessoas que tinha feito um pacto com o diabo devido à sua extrema virtuose que deixava plateias de boca aberta.

Tartini, compositor italiano do barroco nascido a 1692, assim aumentou essa teoria supersticiosa quando contou esta história deveras interessante com as suas exactas palavras:

«Numa noite, no ano de 1713, sonhei que tinha feito um pacto com o diabo pela minha alma. Tudo aconteceu como eu tinha desejado: o meu novo servo antecipou todos os meus desejos. Entre outras coisas, eu dei-lhe o meu violino para ver se ele conseguia tocar. Como me espantei ao ouvir uma sonata tão maravilha e bonita, tocada com tanta arte e inteligência, como eu nunca tinha imaginado nas minhas mais ousadas navegações pela fantasia. Senti-me arrebatado, encantado, numa outra dimensão: até a minha respiração me faltou, e – acordei. Peguei logo no violino para poder reter, em parte pelo menos, a impressão do meu sonho. Mas foi em vão… A música que eu tinha acabado de compôr era sem dúvida a melhor que eu já tinha alguma vez escrito, e ainda a chamei de Trilo do Diabo, porém a diferença entre o que escrevi e o que me comoveu no sonho era tão grande que eu estive quase para ter a coragem de destruir o meu instrumento e quase que desisti para sempre da música se fosse possível viver sem a alegria que isso me dá.»

E esta é mais uma das loucuras passadas no mundo musical erudito, com um certo romantismo no período barroco.

Composta para violino solo e baixo contínuo, esta sonata em Sol maior apresenta-se em quatro andamentos.

Aqui temos a interpretação do violinista israelita Itzhak Perlman, o famoso violinista que toca sempre sentado devido a uma doença que contraiu aos quatro anos.

Fascínios opus 3, Lambe-me o rabo de W. A. Mozart

Talvez será um pouco ofensivo o título, mas é mesmo assim o título traduzido da peça de autoria do aclamado Wolfgang Amadeus Mozart que se intitula em alemão Leck mich im Arsch.

É um cânone na tonalidade de Si bemol maior e cantado a seis vozes.

Obviamente que não passa de uma brincadeira para folgar com os seus amigos, mas esta obra é uma das provas do génio infantil e surpreendente de Mozart. E lambe-me no rabo é uma tradução de um modo literal, o mais certo é ser vai-te lixar.

Eis aqui a tradução da letra e o vídeo com interpretação do Chorus Viennensis:

Lambe-me o rabo, / Sejamos felizes! / Resmungar é em vão! / Rosnar, zumbir é em vão, / é a verdadeira maldição da vida, / Zumbir é em vão, / Rosnar, zumbir é em vão, em vão! / Deste modo, estejamos alegres e contentes, estejamos felizes!

Fascínios opus 2, Helikopter-Streichquartett de Karlheinz Stockhausen

Composta em 1993, Helikopter-Streichquartett é um quarteto de cordas juntamente com helicópteros, um instrumentista por cada helicóptero. É de autoria de Karlheinz Stockhausen e o alemão é conhecido pela sua composição serial e pioneiro da música electrónica; é considerado um génio do experimentalismo.

Esta peça, incrivelmente, é a terceira cena da ópera Mittwoch aus Licht (Quarta-feira de luz) e esta está dentro do ciclo de ópera Licht (Luz), Os sete dias da semana. Foi concebida para ser transmitida para um auditório via ecrãs.

Estive quase para a colocar como um artigo musical, mas como não é minha intenção abordar muito esta peça decidi pô-la em Fascínios.

Explorando o neurótico típico deste género de contemporâneos, interiorizem o sentimento tão estranho que ela produz, apesar dos poucos minutos de demonstração.

Para quem é curioso, aqui fica uma página da partitura que nos mostra uma notação excêntrica:

 http://www.todayandtomorrow.net/wp-content/uploads/2008/08/stockhausen.jpg