Ela Canta, Pobre Ceifeira de Fernando Pessoa

Ela Canta, Pobre Ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

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Poema Contrariedades de Cesário Verde

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas…

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos…

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

As pupilas do senhor reitor de Júlio Dinis

«Romance de Júlio Dinis publicado, em 1866, sob o formato de folhetins no Jornal do Porto, e em volume no ano seguinte. Segundo o próprio autor, numa referência das “Notas”, a obra teria principiado a ser escrita em 1863, durante a permanência de Júlio Dinis em Ovar. O título refere-se às personagens femininas do romance, duas meias-irmãs órfãs, Margarida e Clara, de personalidades opostas, adotadas pelo Reitor. A intriga centra-se, contudo, em Daniel, segundo filho do lavrador José das Dornas. Depois de, em rapazinho, ter renunciado à carreira eclesiástica por amor a Margarida, Daniel regressa à aldeia, já médico e completamente esquecido do seu idílio de infância. Para além do Reitor, a obra apresenta uma interessante galeria de tipos rústicos, onde se destacam as figuras de José das Dornas, João Semana, o bondoso médico rural, João da Esquina, o dono da loja, e a sua esposa interesseira, a ti’Zefa, a beata linguaruda, entre outras. Em suma, As Pupilas do Senhor Reitor traduz a vida rural portuguesa da época. Um livro escrito com a simplicidade de estilo e o realismo de representação que caracterizam a obra de Júlio Dinis, recheado de situações imprevistas e de grande intensidade dramática.»

(artigo publicado em http://www.infopedia.pt/$as-pupilas-do-senhor-reitor,2)

Esta foi a obra que acabei de ler. É da autoria de Júlio Dinis, que nem é Júlio nem Dinis, mas sim Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Vivo entre 1839 e 71, destacou-se como romancista. Mas também dominou a arte médica bem como a escrita de versos e didascálias, a escrita de poemas e peças dramáticas.

Acho-a deveras interessante. Existem dois importantes momentos. A formação de Daniel para padre que se revela um fracasso e, por isso, é mandado para a cidade estudar e ser «senhor»; o regresso de Daniel que origina alguns problemas, nos quais a acção se intensifica e torna-se apelativa. Júlio Dinis também se apresenta como um defensor da aldeia, do ambiente campestre como modelo de vida, oposto à cidade. Mas consegue encontrar alguns podres na aldeia, como a sua pequeneza em termos de comunicação, uma notícia mal sai corre as vielas inteiras; critica a coscuvilhice.

São tantas as ideias que nos mostra, algumas que parecem pertencer ao século em que vivemos; algumas frases que são marcantes e nos fazem pensar. Tudo isto com um teor romântico e realista, de que faz parte o seu estilo. Aconselho-o.

Aqui têm o link do livro em e-book http://www.4shared.com/get/OpMlqV2Z/Julio_Dinis_-_As_Pupilas_do_Se.html. O e-book foi realizado pela Biblioteca Digital da Porto Editora que parece que agora não o disponibiliza gratuitamente, sendo necessário o registo. Ou se o faz, não sei aonde; por isso é que está à disposição no 4shared de um modo seguro e gratuito.

Discurso emblemático de José Saramago

Disponibilizo por baixo deste pequeno texto um link de download que contém o discurso que José Saramago proferiu no Fórum Social  Mundial do ano 2002, no Brasil. Este evento organizado por movimentos sociais caracteriza-se por ser anti-globalização e anti-capitalista em que a sua frase de efeito é Um outro mundo é possível.

Como não podia deixar de ser, Saramago deixou a sua marca com aquilo que chamou o dom da palavra.

É realmente profícuo ler estas palavras do grande escritor lusitano.

http://www.mediafire.com/?sc4iggacssng5zg (abre em novo separador para poder descarregar)