Judia ortodoxa ajuda palestiniana autista e cega a tornar-se pianista, jornal Expresso

Quando um casal de missionários holandeses a encontrou, Rasha Hamid encontrava-se em muito mau estado.

Aos 4 anos, ela e a irmã viviam confinadas num quarto desde o nascimento. Alimentadas só com leite, sofriam de grave atraso mental e físico. Mal falavam, batiam constantemente com a cabeça, enfiavam os dedos nos olhos. Foram recolhidas pelo casal Vollbehrs e mais tarde integradas em Beit Yemina, a escola- orfanato por eles criada nas imediações de Belém.

Um dia, quando se cantava um hino, Rasha começou a acompanhar com uma harmonia própria. Surpreendidos, os Vollbehrs perceberam que tinham ali alguém com verdadeiro talento musical. Compraram um piano, onde Helena Vollbehrs ensinou Rasha a tocar.

Quanto se tornou necessário que ela prosseguisse os estudos a um nível superior, levaram-na para o conservatório.

A política não era importante

A professora Devorah Schramm, nascida nos EUA e judia ortodoxa (apresenta-se sempre com a pesada peruca que as normas religiosas impõem), foi informada de que havia uma criança cega à sua espera.

Percebeu que além de cega, Rasha tinha severos bloqueios mentais e comunicacionais, e era palestiniana. Mas nem hesitou. Para ela, a política não tem muita importância. Aceitou a aluna de 11 anos, e nunca se arrependeu.

Logo nas primeiras aulas, ficou espantada com as harmonias que ela gerava espontaneamente. Harmonias negras, insólitas, que formariam a base de muitas das futuras composições de Rasha.

Quando lhe perguntam o que significa a música para a sua aluna, Schramm responde com uma palavra: paz.

Intifada, e dificuldades financeiras

Se a vocação musical estava fora de dúvida, algumas das outras dificuldades permaneciam. Houve momentos difíceis, tanto a nível da relação entre aluna e professora (embora Schramm diga que o melhor de tudo, para si, foram os momentos em que Rasha, incapaz de articular palavras, se virava para ela com ternura) como das evoluções lá fora.

Entre esses anos de aprendizagem teve lugar a segunda Intifada, especialmente sangrenta. A certa altura, militantes palestinianos disparavam da zona onde Rasha vivia para aquela onde vivia Devorah. Mas esta não se deixou dissuadir.

Hoje em dia Rasha está com 36 anos, e a relação continua. Os problemas agora são ao mesmo tempo políticos e financeiros. Beit Yemina tem de gastar muito dinheiro para obter as autorizações que permitem a Rasha ir a Israel para ter aulas. Fala-se em cortar.

Devorah espera que não aconteça. E evoca o prazer de Rasha quando toca em público e ouve os aplausos. “Às vezes ela própria aplaude”.

Notícia em: http://aeiou.expresso.pt/judia-ortodoxa-ajuda-palestiniana-autista-e-cega-a-tornar-se-pianista=f694490#ixzz1gbtNDOEC

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A utopia democrática, crónicas opus 3

O Sábado fez umas perguntas a uns universitários. Eis o resultado:

(vejam o vídeo e depois o meu pensamento)

Apesar de me ter rido bastante, reflecti um pouco e pensei que a democracia nunca poderá existir. Como poderá um povo afirmar-se em simultâneo e comandar o mundo tendo em conta cada indivíduo quando existe ignorância deste tamanho no mundo? Admito que existiam algumas perguntas que são geralmente compreensíveis não saberem, como por exemplo o actor do filme “O padrinho”; ainda por cima, o cinema ainda não tem boas caras na arte erudita.

Concluí, que o povo deve ser conduzido por líderes, é o único caminho possível. Porque a ignorância aproxima-nos do nosso carácter animal, e o nosso carácter animal exige um líder (como podemos constatar nos símios e noutras espécies animais). Talvez a minha frivolidade seja muita a referir-me aos humanos como meros animais, mas enquanto a preguiça e a ignorância comandar o mundo estamos muito longe do humanismo e do ideal humano de assumir a sua superioridade. Mais uma vez, até poderia aplicar tal filosofia à música. Como tanta balbúrdia sonora nos aproxima da animalidade humana!…

Para além disso, desconhecia o perfil do jornal Sábado e a surpresa com que fico ao abrir o seu site e a ver enorme ignorância a nível jornalístico e os seus tratamentos de coisas banais. Enfim…

Portugal – The beauty of simplicity

Como futurista, não defendo nacionalismos nem aprovo a existência de nações. Não irei justificar estas minhas ideologias que enveredam por caminhos filosóficos muito emaranhados. Mas a verdade é que existe um certo bichinho que a sociedade me transmitiu com um certo patriotismo português. E foi essa ínfima parte que me levou a dar a conhecer este vídeo aos demais.

Ele está intitulado Portugal – The beauty of simplicity e foi realizado para promover o turismo em Portugal. De autoria de Daniel Pinheiro, poderão ver mais alguns vídeos deles aqui no Vimeo.

Vejam com que injustiça os portugueses se desacreditam.

Para que serve a música? – Parte 2

CANTAR PARA QUÊ?

Mas se o uso da música como ferramenta de comunicação foi ultrapassado pela linguagem, por que ela continuou existindo? Para essa pergunta nem precisamos da ajuda dos cientistas. Todo mundo que já se apaixonou e dedicou uma música ao ser amado pode responder sem medo. É porque ela assumiu um papel que a fala sozinha não deu conta: transmitir emoções. E essa característica nós podemos notar independentemente das preferências pessoais de cada um. Para provar isso o psicólogo John Sloboda, da Universidade de Keele, na Inglaterra, uma das maiores autoridades em emoção musical do mundo, fez um teste interessante. Ele colocou 83 voluntários para ouvir uma série de peças musicais e depois pediu que eles descrevessem qual sensação tiveram. Cerca de 90% reportaram “frio na espinha” e “nó na garganta”. Alguns chegaram a chorar. Ao analisar quais trechos haviam provocado essas reacções, Sloboda constatou que eram basicamente os mesmos.

Alguns acordes parecerem tristes e outros felizes pode ter também uma explicação evolutiva. Essa interpretação é relacionada com a forma como o nosso cérebro processa sons amistosos e ameaçadores desde a época em que éramos presas fáceis. “Pense num cão. Quando ele quer demostrar carinho faz um som mais agudo, mais tonal. Quando está agressivo é mais grave e ruidoso”, diz Paulo Estêvão Andrade. Assim, dependendo da combinação de tons, a música é capaz de provocar uma sensação que vai do prazeroso ao desagradável. Quanto mais dissonantes forem os intervalos das notas musicais, maior será a sensação de tensão ou medo. Isso é fácil de ser identificado se ouvirmos as trilhas sonoras de filmes de terror ou suspense, como a clássica de Psicose, de Alfred Hitchcock.

Essa função musical de comunicar sentimentos faz sentido não só hoje, mas em sua própria origem. Se os animais também modificam a expressão vocal para demonstrar um sinal de pacto, como o ganido de submissão de um cachorro, “parece inevitável que as expressões formais de emoção sejam aos poucos fundidas em algo semelhante à melodia”, escreve Jourdain. “É exercitando ou aplacando emoções que estabelecemos relação com outros seres humanos.” E a música corporifica isso.

Para quem começou a reportagem falando que não havia utilidade aparente para a música, até que já alcançamos uma boa marca. Mas alguns pesquisadores ainda vão além. Para Ian Cross, director do Centro para Música e Ciência da Universidade de Cambridge, a música também é capaz de activar capacidades como a memória e talvez até mesmo a inteligência. O efeito sobre a memória é facilmente detectado no dia-a-dia. Pegue, por exemplo, a época de eleições. Para fixar alguma informação, nada melhor do que musicá-la. Essa faceta da música parece ter sido útil para a transmissão da cultura na pré-história, quando ainda não dominávamos a escrita.

Já o impacto sobre a inteligência é mais difícil de constatar. A tentativa mais famosa ficou conhecida como “efeito Mozart”. Quando foi proposta, em 1993, levou a um surto de compras de discos do compositor, mas até hoje é polémica. Na ocasião o neurocientista Fran Rauscher, da Universidade de Wisconsin, e o neurologista Gordon Shaw, da Universidade da Califórnia, mostraram que crianças apresentavam desempenho matemático melhor após ouvir sonatas do compositor austríaco. O efeito da simples audição, no entanto, nunca foi comprovado. O que parece fazer mais sentido é quanto a possíveis benefícios relacionados ao aprendizado de música, que induz ao prolongamento dos neurónios e aumento das conexões entre eles. Os cérebros dos músicos, inclusive, acabam apresentando uma massa maior de neurónios, o que sugere maior inteligência.

CURA PELO SOM

De todas as funções abordadas até agora, nenhuma é tão misteriosa quanto o possível uso medicinal da música, principalmente para pacientes com mal de Parkinson ou Alzheimer e vítimas de derrame que só melhoram escutando música. Histórias complexas são relatadas pelo neurologista Oliver Sacks em livros como Tempo de Despertar, que foi adaptado para o cinema. É exemplar o caso da paciente Frances D., que sofria de Parkinson e durante as crises ficava paralisada, rangendo os dentes e sofrendo muito.

Sacks descobriu que a única coisa que acalmava os sintomas era a música. Quando Frances ouvia o som, desapareciam completamente todos os fenómenos “obstrutivo-explosivos” e ela ficava feliz. “A senhora D., repentinamente livre de seus automatismos, ‘regia’ sorridente a música ou se levantava e dançava ao seu som”, escreveu Sacks. O médico percebeu o mesmo efeito em vários outros pacientes. Em alguns casos, só de pensar em música eles ficavam melhores.

Mas, infelizmente, o remédio é temporário, proporcionando uma espécie de equilíbrio momentâneo para o cérebro doente. “A música vence os sintomas ao transportar o cérebro para um nível de integração acima do normal. Ela estabelece fluxo no cérebro, enquanto, ao mesmo tempo, estimula e coordena as actividades cerebrais, colocando suas antecipações na marcha correta”, diz Robert Jourdain. Para o pianista – que busca responder em seu livro por que gostamos tanto de música -, a magia que ocorre com os pacientes é a mesma que ocorre com todos nós. “A música nos tira de hábitos mentais congelados e faz a mente se movimentar como habitualmente não é capaz. Quando somos envolvidos por música bem escrita, temos entendimentos que superam os da nossa existência. E quando o som pára, voltamos para nossas cadeiras de rodas mentais.”

Para que serve a música? – Parte 1

Este é mais um daqueles artigos que não saberei citar a fonte porque encontrei-o algures na rede e já não me recordo onde. Mas achei-o interessante o suficiente para o postar aqui. Vale a pena ler. Será disposto em duas partes.

§

Para que serve a música?

A música sempre foi tratada pela ciência como mera fonte de diversão. Agora, pesquisadores estão propondo que sua função vai muito além do prazer.

Antes de ler esta reportagem, tente lembrar quantas vezes na última semana você ouviu música. Não só as baladas do rádio, mas também as pílulas de sonolência na sala de espera do dentista. Ou o canto de alguém a seu lado no ônibus. É muito provável que você não tenha passado um único de seus últimos dias sem escutar alguns acordes. Às vezes nem nos damos conta, mas a música nos cerca por todos os lados. Há música para dançar, namorar, estudar. Música para enfrentar o trânsito, trabalhar, fazer ginástica e para relaxar no final do dia. Música para rezar, curar e memorizar. Para comunicar as emoções que não conseguimos transmitir só por meio de palavras. E música simplesmente para ouvir e curtir. Dos aborígenes australianos aos esquimós no Alasca, todas as sociedades do mundo a têm em sua cultura – até porque, você pode não saber, mas a música está connosco desde quando ainda nem éramos seres humanos propriamente ditos.

Com base no achado de flautas de ossos feitas há 53 mil anos pelos neandertais, pesquisadores estimam que a actividade musical deve ter pelo menos 200 mil anos – contra 100 mil anos de vida do Homo sapiens. É maravilhoso imaginar que talvez esses hominídeos já buscassem formas de diversão. Mas, pensando bem, que sentido pode fazer a música em um período no qual nossos ancestrais estavam muito mais preocupados em não ser devorados por um leão do que com o próprio prazer? E mesmo na sociedade contemporânea, se nos cercamos de música com tanto afinco, é de supor que, assim como a fala, ela sirva para alguma coisa, tenha alguma função específica para a humanidade. Mas qual?

A pergunta atormenta filósofos e cientistas há séculos e, infelizmente, ainda não tem resposta conclusiva. Já se imaginou, por exemplo, que a música é responsável por reger a harmonia entre os homens e os astros que mantém a ordem do Universo – uma ideia formulada por Pitágoras no século 5 a.C. Hoje, boa parte da pesquisa científica por explicações tem uma perspectiva evolutiva e biológica. Muitos ainda a vêem apenas como produto cultural voltado ao prazer, sem nenhuma importância para o desenvolvimento humano. “Uma primorosa iguaria que estimula as nossas outras faculdades mentais”, defende o psicólogo Steven Pinker em seu livro Como a Mente Funciona. Apesar de meramente especulativas, teorias evolutivas são as que parecem estar mais próximas de nos responder as perguntas acima. Então, vamos a elas.

INICIAÇÃO MUSICAL

A primeira hipótese sobre a função da música foi levantada por Charles Darwin. O biólogo que popularizou o conceito de evolução das espécies dizia que a música é determinante para a escolha de parceiros sexuais, uma vez que as fêmeas seriam atraídas pelos melhores cantores. “O homem que canta bem, é afinado, expõe melhor seus sentimentos. Parece mais sensível, mais inteligente. E isso agrada as mulheres”, afirma o jornalista e músico brasileiro Paulo Estêvão Andrade, que está escrevendo um livro sobre pesquisas que relacionam música e cérebro. Isso soa bastante familiar: qual mulher nunca teve uma sedução pelos músicos? “A música sempre está ligada ao comportamento sexual, desde os rituais de acasalamento, até as conquistas dos jovens de hoje em danceterias ou shows”, afirma o neurocientista americano Mark Tramo, que coordena o Instituto para Ciências da Música e do Cérebro, da Universidade Harvard.

Muitos cientistas não se convencem de que essa teoria explica, sozinha, toda a importância da música para diferentes sociedades do planeta. Uma das hipóteses mais aceitas hoje é a de que a música teve função primordial na formação e sobrevivência dos grupos e na amenização de conflitos. Se ela existe e persiste, é porque provoca respostas que agem como um forte factor de coesão social. “Precisávamos caçar e nos defender juntos e para isso tivemos de nos organizar. A música abriu o caminho para nos comunicarmos e dividir nossas emoções”, explica Mark.

Mas como era essa música feita por nossos antepassados? Provavelmente, ela surgiu como uma manifestação das emoções. Uma sofisticação, por exemplo, do choro e da comédia. Principalmente, como uma forma de chamar a atenção do grupo e motivá-lo para a realização de uma actividade que precisava ser feita em conjunto. É possível imaginar que um indivíduo batesse palmas, ou pedras ou gravetos, mas o mais plausível é que o primeiro instrumento musical tenha sido mesmo a voz humana. O cientista cognitivo William Benzon, autor do livro Beethoven’s Anvil (“A Bigorna de Beethoven”, sem tradução para o português) especula que tudo começou muito tempo antes, com a imitação dos sons de outros animais.

Benzon sugere que o Homo erectus, ao se espalhar pelo planeta a partir do leste da África, há 2 milhões de anos, teve de procurar novas formas de se proteger enquanto atravessava as estepes, já que não contava mais com o abrigo das árvores das florestas. Entre muitas outras artimanhas, esses hominídeos teriam começado a emitir chamados ameaçadores. “Se rosnar e rugir como um leão, você não só vai dispersar as presas naturais dele como também outras espécies que estejam por perto”, afirma. Essa imitação teria proporcionado o início do controle do aparelho vocal, primeiro passo para a origem da música e da linguagem. A reprodução dos sons dos animais e da natureza, como o vento ou os trovões, deve ter evoluído até que as necessidades passaram a ser outras, e a imitação deu espaço para a criação. Daí a perceber como o som do “uh-uh-uh” servia para instigar a guerra, por exemplo, não deve ter demorado. Tudo isso sem que fosse necessário dizer uma palavra.

Chegamos então a um ponto delicado: a música surgiu antes ou depois da linguagem falada? Essa é outra pergunta que divide cientistas. As duas aptidões são universais, mas a linguagem obviamente parece muito mais útil que a música, o que leva a crer que ela tenha-se desenvolvido primeiro, “com a música ramificando-se da linguagem apenas após ter sido feita boa parte do trabalho evolucionário pesado”, como escreveu o pianista Robert Jourdain em seu livro Música, Cérebro e Êxtase.

Acreditar que primeiro desenvolvemos a fala e depois apuramos a técnica musical pode parecer um caminho lógico. Mas a verdade é que não é exactamente assim que funciona o nosso ciclo de aprendizado. Antes dos bebés saberem falar, eles já balbuciam de uma forma muito musical. “É comum vê-los inventando melodias mesmo desconhecendo a reprodução dos sons convencionais”, diz a psicóloga Sandra Trehub, da Universidade de Toronto, que pesquisou a percepção musical em crianças. Isso pode ser um indicativo de como nossos ancestrais se manifestavam antes de desenvolver a linguagem. “Talvez as cordas vocais e bocas deles ainda não estivessem prontas para falar, mas eles tinham ritmo e podiam grunhir e fazer sons. Isso poderia ser tomado como música, ou ao menos como sua raiz”, afirma Mark Tramo.

Como a Música é Percebida no Cérebro Humano – parte 3

Como os Sons Envolvem o Cérebro e a Imaginação

Pianista profissional e compositor que há 20 anos, Robert Jourdaintrabalha com inteligência artificial. Para além disso, é criador de software sintetizador de música e autor de cinco obras sobre computação. No seu livro “Música, cérebro e êxtase”, ele acompanha a evolução da música desde seus primórdios e examina a maneira como o cérebro processa as hierarquias de som. Além disso, conta a história de personagens fascinantes, como Mozart, que começou a tocar cravo aos 3 anos, e Ravel, que aos 58 anos tornou-se vítima de amusia, uma doença rara em que o paciente perde as habilidades musicais.

Na amusia, acontece a perda, decorrente de lesão cerebral, de uma ou mais habilidades musicais, sejam as exigidas para ouvir música (como a capacidade de ouvir intervalos harmónicos), sejam as exigidas para fazê-la (como a leitura de partituras). O problema de Ravel não era de controlo físico e ele conseguia tocar qualquer escala num teclado de piano. A memória também não era deficiente. Mas suas lesões progressivas no hemisfério esquerdo tornaram-no incapaz de transpor para a realidade objectiva – no caso, o papel – as imagens musicais de sua mente.

Na maioria das pessoas, o lado direito do cérebro favorece a análise da harmonia e do contorno melódico e o esquerdo mostra especial talento para processar o ritmo. Os músicos profissionais costumam ser tão analíticos, em sua percepção de melodias, que ocorre neles uma dominância do cérebro esquerdo.

Mesmo assim, uma lesão no hemisfério cerebral direito pode prejudicar a vida deles. Jourdain conta como isso aconteceu com um professor de música que sofreu um derrame no lado direito do cérebro.

Com o hemisfério esquerdo intacto, manteve suas capacidades intelectuais e logo voltou a ensinar, reger e escrever livros, embora a paralisia parcial prejudicasse suas aptidões como intérprete. É claro que um paciente de amusia não pode se beneficiar muito com um tratamento baseado em vozes ou instrumentos. Mas outras doenças, como o mal de Parkinson e o autismo, usam a música como terapia auxiliar poderosa. Os sons são capazes de evocar reacções estimulantes:

– A música tira-nos dos nossos hábitos mentais congelados e faz as nossas mentes movimentarem-se como habitualmente não são capazes. Quando somos envolvidos por música bem escrita, temos uma compreensão que supera a da nossa existência mundana e, em geral, está além da lembrança. Quando o som cessa, voltamos para nossas cadeiras de rodas mentais – diz o pianista.

Várias experiências científicas confirmam o poder terapêutico da música. Pacientes que acabam de ouvir Mozart se saem melhor em alguns tipos de testes de raciocínio que os que não ouviram música alguma ou ouviram música popular simples. O neurologista Oliver Sacks fala de um paciente gravemente retardado, que só era capaz de desempenhar tarefas complexas se ouvisse música. Isso acontece porque, para esse tipo de indivíduo, a música organiza o cérebro de uma forma que a experiência comum, caótica, não consegue fazer.

Outra paciente de Sacks, com mal de Parkinson, testemunhou o imenso poder da música sobre ela, comparando o seu movimento ao movimento da própria vida. Obviamente, a música não repara os neurónios defeituosos que causaram a doença, mas ajuda o parkinsoniano a vencer seus sintomas ao transportar o cérebro para um nível de integração acima do normal. Mas a música só pode ajudar um paciente com Parkinson se for de um tipo que corresponda ao seu gosto, afirma Jourdain. Música clássica poderia fazer maravilhas, num caso, enquanto em outro só um rock teria resultado. Isso mostra, acrescenta o pianista, que a música não funciona de forma passiva como remédio, mas exige que o paciente participe, gerando um fluxo de antecipações musicais. É mais ou menos o processo que acontece com qualquer bom ouvinte.

Os grupos de vítimas de acidente vascular cerebral confirmam a teoria. Os pacientes das sessões de musicoterapia animam-se quando a profissional toca ao piano alguma canção que os marcou na juventude. A partir daí, procuram atiçar a memória, articulando com crescente eficiência frases que remetem a um período anterior à doença. Isso pode não ser a cura, diz Paula, mas é um salto importante na qualidade de vida.

Embora o gosto musical seja importante no tratamento, a música não é uma panaceia universal, segundo Jourdain:

– O paciente, antes de mais nada, precisa ser musicalmente sensível e tem de estar na disposição de espírito certa, para ser dominado pela música. E a música tem de ser exactamente do tipo certo. Ritmo percussivo agudo pode fazer um paciente entrar em espasmos, como uma marioneta, e canto monótono revela-se fraco demais para trazer benefício.

Jourdain vai além na comparação entre tipo de música e comportamento. Em anos recentes, conta ele, donos de lojas descobriram que transmitir música clássica para a rua afasta traficantes de drogas. E Mozart tem sido tocado em centros comerciais para expulsar adolescentes ociosos.