Um bom Natal – Te Deum de Charpentier & A Ceremony of Carols de Britten

Desejo um bom Natal para todos os cristãos. E que se lembrem do verdadeiro sentido religioso desta quadra e que se esqueçam das futilidades comerciais e tradições que só fazem distrair o ser humano da importância do dia para a fé cristã.

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Te Deum – Marc-Antoine Charpentier (1643 – 1704)

Conhecido hino litúrgico católico, Te Deum Laudamos foi recurso textual para muitas composições musicais. Esta, provavelmente, é a mais conhecida pela gente comum e a música não se resume apenas ao excerto melódico tão popular. Este motete em  ré maior composto pelo compositor francês do barroco Charpentier entre 1688 e 1698 foi orquestrada com um coro, vozes solistas e acompanhamento instrumental e conta com dez partes. «Viva (ou brilhante) e marcial», segundo as palavras do próprio compositor, aqui a temos em grande pomposidade.

As informações da interpretação podem visualizar-se na descrição dos videos no Youtube.

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A Ceremony of Carols op. 28 – Benjamin Britten (1913 – 1976)

Esta peça foi composta especialmente para o Natal em 1942 e está destinada a um coro infantil a três partes, vozes solistas e acompanhamento de harpa. Tem onze movimentos e o texto cantado pertence a The English Galaxy of Shorter Poems de Gerald Bullet.

Aqui temos a interpretação do coro do Trinity College de Cambridge dada em 1997 sob direcção de Richard Marlow.

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Feliz Natal!

Um pouco de contemporâneo…

Apresento-vos aqui duas peças de dois compositores excêntricos e maravilhosos que ainda ando a descobrir e que pertencem à nova era intelectual da música. São eles Toru Takemitsu e Brian Ferneyhough, o último ainda vivo.

Toru Takemitsu é japonês e nasceu em 1930 e faleceu em 1996. A sua obra revelam influências de Messiaen e Debussy, entre outros,  bem como outras influências como a música tradicional japonesa. Não posso falar muito dele por aqui visto não possuir de muitos conhecimentos sobre ele. Escrever sobre ele retirando informações da internet seria mentir e penso que para já, estas informações chegam. Num futuro próximo, trarei mais peças para aqui deste compositor e mais detalhes sobre vida e obra.

Brian Ferneyhough, inglês nascido em 1943, tem como características de suas obras a extrema complexidade do ritmo. E para já não digo mais nada pelas mesmas razões que acima referi.

Judia ortodoxa ajuda palestiniana autista e cega a tornar-se pianista, jornal Expresso

Quando um casal de missionários holandeses a encontrou, Rasha Hamid encontrava-se em muito mau estado.

Aos 4 anos, ela e a irmã viviam confinadas num quarto desde o nascimento. Alimentadas só com leite, sofriam de grave atraso mental e físico. Mal falavam, batiam constantemente com a cabeça, enfiavam os dedos nos olhos. Foram recolhidas pelo casal Vollbehrs e mais tarde integradas em Beit Yemina, a escola- orfanato por eles criada nas imediações de Belém.

Um dia, quando se cantava um hino, Rasha começou a acompanhar com uma harmonia própria. Surpreendidos, os Vollbehrs perceberam que tinham ali alguém com verdadeiro talento musical. Compraram um piano, onde Helena Vollbehrs ensinou Rasha a tocar.

Quanto se tornou necessário que ela prosseguisse os estudos a um nível superior, levaram-na para o conservatório.

A política não era importante

A professora Devorah Schramm, nascida nos EUA e judia ortodoxa (apresenta-se sempre com a pesada peruca que as normas religiosas impõem), foi informada de que havia uma criança cega à sua espera.

Percebeu que além de cega, Rasha tinha severos bloqueios mentais e comunicacionais, e era palestiniana. Mas nem hesitou. Para ela, a política não tem muita importância. Aceitou a aluna de 11 anos, e nunca se arrependeu.

Logo nas primeiras aulas, ficou espantada com as harmonias que ela gerava espontaneamente. Harmonias negras, insólitas, que formariam a base de muitas das futuras composições de Rasha.

Quando lhe perguntam o que significa a música para a sua aluna, Schramm responde com uma palavra: paz.

Intifada, e dificuldades financeiras

Se a vocação musical estava fora de dúvida, algumas das outras dificuldades permaneciam. Houve momentos difíceis, tanto a nível da relação entre aluna e professora (embora Schramm diga que o melhor de tudo, para si, foram os momentos em que Rasha, incapaz de articular palavras, se virava para ela com ternura) como das evoluções lá fora.

Entre esses anos de aprendizagem teve lugar a segunda Intifada, especialmente sangrenta. A certa altura, militantes palestinianos disparavam da zona onde Rasha vivia para aquela onde vivia Devorah. Mas esta não se deixou dissuadir.

Hoje em dia Rasha está com 36 anos, e a relação continua. Os problemas agora são ao mesmo tempo políticos e financeiros. Beit Yemina tem de gastar muito dinheiro para obter as autorizações que permitem a Rasha ir a Israel para ter aulas. Fala-se em cortar.

Devorah espera que não aconteça. E evoca o prazer de Rasha quando toca em público e ouve os aplausos. “Às vezes ela própria aplaude”.

Notícia em: http://aeiou.expresso.pt/judia-ortodoxa-ajuda-palestiniana-autista-e-cega-a-tornar-se-pianista=f694490#ixzz1gbtNDOEC

Frases emblemáticas opus 6, Stravinsky e o trabalho

«Um leigo pensaria que, para criar, é preciso aguardar a inspiração. É um erro. Não que eu queira negar a importância da inspiração. Pelo contrário, considero-a uma força motriz, que encontramos em toda a actividade humana e que, portanto, não é apenas um monopólio dos artistas. Essa força, porém, só desabrocha quando algum esforço a põe em movimento, e esse esforço é o trabalho.»

Igor Stravinsky, ‘Citado na revista húngara Múzsák, 1982’

Jorge Croner de Vasconcelos (1910-1974)

FotoQuando conheci este compositor e procurei obras dele pelo Youtube, fiquei decepcionado. Existem apenas duas obras, ambas com participação vocal, das muitas que aglomeram três ballets, dois poemas sinfónicos, algumas peças para piano, várias canções, outras obras corais e ainda outras de câmara.

Nascido a 11 de Maio de 1910 na capital portuguesa, no ano da instauração republicana, entrou no Conservatório Nacional de Lisboa em 1927 para estudar piano e chegou a estudar composição com o consagrado Freitas Branco. Antes, tinha frequentado a Faculdade de Letras, mas acabou por decidir em seguir uma vida na música.

Mais tarde, prosseguiu os seus estudos em Paris com diversos nomes como Dukas, Boulanger, Roger-Ducasse, Cortot e Stravinsky. Ao voltar a Lisboa, em primeiro lugar, leccionou história da música na Academia de Amadores de Música e, posteriormente, a mesma disciplina mais composição e canto, porém, tal facto, a partir de 1939, e a leccionar no Conservatório onde havia estudado.

Continuou as suas actividades como pianista, porém em 1943 decidiu abandonar a sua carreira como solista e dedicar-se apenas ao ensinamento de composição musical. Em 1974, outro ano importante para o sistema governamental pois dá-se a queda da ditadura, e Croner de Vasconcelos também cai no descanso eterno a 9 de Dezembro em Lisboa.

A sua obra, de acordo estrito com o que refere o New Grove Dictionary of Music, revelam fortes influências de Ravel, mas também de Stravinsky e Hindemith. Nas suas preferências artísticas estão os aspectos harmónicos, rítmicos e estruturais para a melodia, com uma tendência das pequenas e condensadas formas.

Nas palavras de Gil Miranda sobre o seu trabalho composicional:

«Tecnicamente, caracterizou-se pelo relevo conferido à dissonância, como elemento estrutural e colorístico. Serviu-se com liberdade e discrição dos idiomas correntes antes do fim da segunda guerra mundial – modalismo, escala de tons inteiros, politonalismo, formação de acordes por sobreposição de intervalos diferentes da terceira. Conservou da música tonal a ideia de centro tonal e de cadência, mas alargou aos doze sons o conceito de tonalidade, e praticou cadências a intervalos diferentes da 5.ª descendente ou 4.ª ascendente. Como Paul Hindemith, seu contemporâneo, procurou uma linguagem musical que superasse o cromatismo romântico herdado de Brahms e Wagner e o atonalismo da 2.ª escola de Viena.  Porém, o instinto meridional afastou-o dos sistemas intelectuais estanques. Seu estilo exibe variedade e vitalidade dos ritmos, opulência da harmonia e, em geral, abstenção de grandes gestos retóricos, substituídos de preferência pela expressão concisa e o acento justo. Do ponto de vista do conteúdo, pode talvez sintetizar-se: um etos frequentemente melancólico; expressão directa da emoção; claridade e transparência da forma; gosto das meias tintas e dos contornos adoçados; capacidade de exprimir paixão, mas dificuldade na expressão da força; por vezes franco sentido humorístico. (…)»

Podem ver mais detalhadamente em http://www.bnportugal.pt/images/stories/agenda/2010/jorge_croner_de_vasconcellos.pdf

Duas obras encontram-se no Youtube e aqui estão elas prontas para se deliciarem com este lusitano compositor. O primeiro vídeo que conta com a soprano Ana Madalena Moreira e o pianista Lucjan Luc, é o da peça sob título Três Redondilhas de Camões, composta em 1927. O segundo , de participação desconhecida, é uma obra composta passados dez anos precisamente e é nos encantada com as letras do poeta Francisco Rodrigues Lobo que viveu entre 1580 e 1622. O poema é Fermoso Tejo Meu e está apresentado no fim do artigo.

Fermoso Tejo meu, quão diferente
Te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
Claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
A quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
O meu viver contente ou descontente.

Já que somos no mal participantes,
Sejamo-lo no bem. Oh! quem me dera
Que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Eu não sei se serei quem de antes era.

Francisco Rodrigues Lobo, in Poesias

A utopia democrática, crónicas opus 3

O Sábado fez umas perguntas a uns universitários. Eis o resultado:

(vejam o vídeo e depois o meu pensamento)

Apesar de me ter rido bastante, reflecti um pouco e pensei que a democracia nunca poderá existir. Como poderá um povo afirmar-se em simultâneo e comandar o mundo tendo em conta cada indivíduo quando existe ignorância deste tamanho no mundo? Admito que existiam algumas perguntas que são geralmente compreensíveis não saberem, como por exemplo o actor do filme “O padrinho”; ainda por cima, o cinema ainda não tem boas caras na arte erudita.

Concluí, que o povo deve ser conduzido por líderes, é o único caminho possível. Porque a ignorância aproxima-nos do nosso carácter animal, e o nosso carácter animal exige um líder (como podemos constatar nos símios e noutras espécies animais). Talvez a minha frivolidade seja muita a referir-me aos humanos como meros animais, mas enquanto a preguiça e a ignorância comandar o mundo estamos muito longe do humanismo e do ideal humano de assumir a sua superioridade. Mais uma vez, até poderia aplicar tal filosofia à música. Como tanta balbúrdia sonora nos aproxima da animalidade humana!…

Para além disso, desconhecia o perfil do jornal Sábado e a surpresa com que fico ao abrir o seu site e a ver enorme ignorância a nível jornalístico e os seus tratamentos de coisas banais. Enfim…